Chá Quente

Jornalismo de tecnologia. Por Guilherme Felitti.

Archive for the ‘telecomunicações’ Category

carta capital: o Google ganha ao perder o leilão dos 700 MHz

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Sistema de busca, aplicativos dentro do navegador, gerenciamento de e-mails, mensageiro instantâneo, software geográfico e plataforma de publicidade.

Se o acúmulo de campos em que atua (e tem um sucesso estrondoso) faz com que você faça parte do grupo daqueles que têm medo do Google, saiba que, apertando, ainda cabe mais um pra empresa de Sergey Brin e Larry Page.

O primeiro passo veio na semana passada, por meio de uma derrota. Ao invés de simplesmente se focar no “fim” (aonde usuários vão quando estão conectados à rede), o Google pretende apelar para o “meio” (provendo a própria estrutura para que o usuário acesse seus serviços).

Em 20 de março, a Comissão Federal de Comunicações (espécie de Anatel dos Estados Unidos) divulgou detalhes sobre o leilão do espectro a ser vago pela TV analógica, dando a vitória à Verizon e à AT&T, operadoras tradicionais no setor, nos dois principais dos cinco blocos em leilão. Interessado e na briga, o Google não levou nada.

Antes de tudo, o que leva o Google a se interessar por um setor onde não tem a mínima experiência? Em poucas palavras, a transição completa da TV analógica para a digital nos EUA, programada para fevereiro de 2009 (enquanto o Brasil planeja relançar seu combalido sistema de transmissão), vagará um bom espaço do espectro que ficará sem uso.

Um dos cinco blocos em que a FCC repartiu o espaço vago, o Bloco C, tem características técnicas que permitem uma rede de dados com velocidade e alcance suficientes para um serviço de banda larga nacional.

Já experimentando conceder acesso WiFi gratuito na região de Mountain View, o Google viu a chance de oferecer o acesso nacionalmente e realmente começar a agir como o “meio” para que mais pessoas chegassem ao “fim” –seus serviços ou sua plataforma de publicidade.

Não deu. Juntas, Verizon e AT&T gastaram 80% dos cerca de US$ 20 bilhões que a FCC arrecadou com o leilão, levando 336 licenças de exploração e, por parte da Verizon, o desejado Bloco C (uma tonelada de dados sobre o leilão está neste arquivo de texto do FCC ).

E porque o Google, que fechou 2007 com US$ 14,2 bilhões em caixa, não aumentou a oferta total de US$ 9,3 bilhões feita pela Verizon? Porque já tinha ganhado o que queria. Questão é que a FCC formulou uma cláusula no leilão exigindo que, após atingir o preço de reserva, o vencedor do Bloco C deveria abrir a rede que haveria de ser construída para softwares e produtos alheios.

Você deve conhecer alguém que já teve problemas com as altíssimas restrições que operadoras impõe a seus clientes. O Bluetooth travado em aparelhos, a internet difícil de ser navegada, o portal apenas com conteúdo próprio, as taxas abusivas para acessar sites convencionais – minha imprecisão deve ser facilmente compensada pela variedade de exemplos do tipo.

O modelo comercial das operadoras, alvo de reclamações freqüentes, sempre se baseou no conceito do “jardim murado”: você entra, mas existem diversas dificuldades para sair. Dados os investimentos milionários feitos por elas em estrutura, existe um medo comum de que as redes se tornem apenas um “meio” para outros conteúdos.

Por isto, você é obrigado a se deparar com um portal próprio da sua operadora com conteúdos sempre exageradamente caros e nem sempre variados – muito do dinheiro ganho com os clientes vem daí.

O primeiro passo para uma mudança neste modelo de negócios veio em 2007 por outro gigante de tecnologia em sua segunda investida no setor – a primeira foi, igualmente, uma derrota. Ao apresentar ao mercado o iPhone, a Apple também entortava as relações que fabricantes tinham com operadoras.

Ao invés de simplesmente se aliar à fabricante para custear aparelhos que prendessem o usuário à sua própria rede por longos planos pós-pagos, a AT&T cedeu poder à empresa de Steve Jobs confiando em outra idéia – a de que um aparelho novo, com liberdade de acesso a conteúdo, levaria a mais tráfego.

Deu certo. “Clientes gastarão mais tempo nos aparelhos (e, logo, nas redes), recebendo contas cada vez maiores e gerando maiores receitas para todos”, diz Fred Vogelstein, em uma excepcional matéria investigativa na Wired sobre como o iPhone foi concebido.

Mesmo sem ganhar a licença para montar a sua própria estrutura para banda larga sem fio nacional, o Google ganhou a certeza que poderá ver seus aplicativos (principalmente o Android, sua plataforma aberta de desenvolvimento para celulares ) rodando no Bloco C, independente do vencedor, numa espécie de simbiose boa apenas para um lado.

Além de levar seus produtos já populares no desktop para uma plataforma móvel cada vez mais confortável para navegação online, o Google tem a ótima oportunidade de transferir o sucesso da sua plataforma de publicidade AdSense do navegador para o celular, incentivado por números animadores.

Ainda incipiente, o mercado de publicidade móvel, estimado em US$ 24 bilhões em 2006, deverá movimentar US$ 55 bilhões até 2011, segundo a Mobile Marketing Association, um naco que a gigante de buscas e publicidade não poderia se dar ao luxo de perder.

Num post no seu blog de política pública no mesmo dia da divulgação dos resultados, o Google admite que “mesmo que não tenha ganho nenhuma licença do espectro, o leilão culminou em uma grande vitória para os consumidores norte-americanos”. “Teremos mais para falar sobre o leilão em um futuro próximo”, promete o buscador, num comentário carregado de cinismo.

Palavras não são necessárias – o barulho das moedinhas que cairão no cofrinho do Google compõe a mensagem.

Written by Guilherme Felitti

April 2nd, 2008 at 12:18 pm

celular open source

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mokodesign
Android my ass. A OpenMoko, que incentiva Linux no celular, vai fundo no conceito open source e está liberando documentação de engenharia para que o usuário crie o corpo do seu próprio celular, o Neo1973.

É hardware livre chegando a celulares.

Written by Guilherme Felitti

March 4th, 2008 at 9:30 pm

Posted in telecomunicações

por quê você deve torcer pelo Google no leilão dos 700 Mhz

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A Comissão Federal de Comunicações, a Anatel responsável por gerenciar espectro e ditar regras de mercado de telecomunicações norte-americano, começou na última semana a leiloar as licenças para exploração da freqüência de 60 MHz do espectro dos EUA – entre elas, está o bloco C, responsável pela banda de 700 MHz.

Enquanto o Brasil engatinha na TV Digital, os EUA matarão a TV analógica, cujo sinal hoje é propagado pela freqüência de 60 MHz, em 17 de fevereiro de 2009, deixando o espectro vago. Uma das características técnicas da tecnologia são ondas de melhor propagação e menor ruído frente a obstáculos quanto mais baixa for a freqüência.

Como redes de dados telefônicos estão hoje entre os 800 MHz e os 850 MHz, faça a matemática e chegue à conclusão que a banda de 700 MHz é um pote de ouro para a transmissão de dados em uma espécie de banda larga sem fio de melhor propagação e alcance, mas não tão boa em carregar dados, que os atuais serviços 3G nos EUA.

O leilão da banda vaga atrairia tradicionalmente operadoras de telefonia interessadas em montar um serviço de transmissão de dados explorando seus benefícios técnicos ou simplesmente em sentar sobre a licença para impedir que concorrentes ameacem mudar o atual modelo de tráfego de dados sem fio nos EUA.

O interesse do Google no leilão, oficializado no final de novembro de 2007, dá conta do interesse do buscador em algo já testado, ainda em que em grau muito menor, nas redes sem fio gratuitas oferecidas na região de Mountain View – oferecer acesso (gratuito, provavelmente) nacionalmente pelos 700 MHz, já que a licença prevê penetração nos 50 estados dos EUA.

Entenda: operadoras de telefonia queimam aparelhos no mercado, seja ele o norte-americano ou o brasileiro, para atrelar usuários a planos longos em que suas redes são bastante usadasO negócio principal é a rede de dados, não os aparelhos.

Não há nada mais sagrado para uma operadora do que sua rede de telefonia. A relação entre operadoras e fabricantes de celulares segue um círculo vicioso – a segunda faz um celular que agrade o usuário e a primeira o oferece a preços irrisórios. Celular comprado, ganha a fabricantes, que vendeu mais um gadget, e a operadora, que terá serviços de telefonia garantidos por alguns meses em planos fechados.

Um caso raríssimo em que operadoras deram poder à fabricante envolve Steve Jobs e seu iPhone. Da sensacional matéria de Fred Vogelstein, da Wired, sobre os batidores do celular da Apple.

For years, carriers had charged customers and suppliers for using and selling services over their proprietary networks. By giving so much control to Jobs, Cingular risked turning its vaunted — and expensive — network into a “dumb pipe,” a mere conduit for content rather than the source of that content.
(…)
The iPhone cracked open the carrier-centric structure of the wireless industry and unlocked a host of benefits for consumers, developers, manufacturers — and potentially the carriers themselves.

A ameaça que o Google representa para as operadoras já é um ótimo motivo para você torcer por ele. Mas não pára aí. Com o lance mínimo atingido, a FCC exigirá que o ganhador, além de cobrir o país todo, deixe sua rede aberta para que equipamentos ou serviços de outros empresas pudessem acessá-la.

O IDG News Service cita analistas que consideram que o interesse do Google pode ser um blefe. Diz que quer, acompanha o processo de perto, se beneficia do leilão anônimo e, com os medo das operadoras tradicionais, sai do processo sem a exigência de gastos bilionários na construação de infra-estrutura, mas com uma rede aberta para seus serviços.

Como todo leilão, quem der o maior lance leva. Na 17º rodada, um participante anônimo (os vencedores serão conhecidos só após todas os 1.099  blocos terem sido arrematados) ofereceu US$ 4,7 bilhões. Ninguém cobriu na rodada seguinte. Ainda não terminou – lances podem ser dados até que todos os blocos tenham propostas.

Uma suposta vitória do Google seria profana – uma empresa de dados no controle de dados não veria a rede proprietária como uma forma de reaver seu caro investimento cobrando muito por conteúdo, mas liberando o tráfego até certo ponto para que outras formas de gerar dinheiro fizessem seu papel (não dá pra não lembrar do AdSense aqui).

A principal razão para você torcer pela vitória do Google é saber que, hoje, ele é uma ameaça real que pode forçar operadoras de telefonia, atualmente tão certas de si a ponto de ofereceram serviços péssimos a seus clientes, a colocarem os pés no chão.

E quem já passou horas tentando cancelar um produto ou uma linha, seja fixa ou celular, sabe bem do que estou falando.

Pra complementar, o Pedro Dória escreve sobre o mesmo assunto, enquanto um texto do Popular Mechanics (usado de base técnica para este post) elucida suas dúvidas mais tecnológicas.

Written by Guilherme Felitti

January 31st, 2008 at 10:40 pm