Archive for the ‘cultura’ Category
eu queria uma asa pra me tirar dali
Eu disse pra ele: “Cuidado rapaz… cê não vai caçar lá não, que pra depois do Rio Branquinho é mata fechada cheia de igarapé, cheia de pântano. Tem muita onça, muita sucuriju, a cobra grande que é muita cobra. A floresta, ali naqueles ponto e pra todo adiante, é uma floresta alta, cheia de ladeirão e barranco”. Mas o Jonatas foi. Ele e mais quatro. Pessoal ingrato, mau companheiro. Porque os quatro voltaram, mas ele não. O Jonatas tava vestido numa calça jeans, tênis, uma camisa do Exército, um chapéu. Levou uma espingarda, 14 cartucho, um canivete e um isqueiro. Na beirada do rio, fiquemo nós no aguardo: atiremo pra cima, provoquemo barulho. Então eu ouvi um tiro: era pra muito longe e aquilo me agoniou. A primeira noite, o Jonatas passou lá pra dentro do mato. Nós no aguardo. Durante 20 dias, o corpo de bombeiro fez busca na floresta. Num arrumaram nada. Eles entravam num dia e voltavam no outro. Sempre a pé. Depois desistiram. Eu não: eu tinha feito a minha equipe. Eu, meu outro filho e dois filho de índio aqui do Amazonas – o Ricardo e o Roberto. Nós fumo e andemo. Oito, dez dia seguido nós dormia na mata. Montava acampamento nas encosta, misturava a conserva no arroz, comia, depois ia dormir na rede. Acordava 5 hora da manhã, tomava Nescafé e saía andando de novo. Nós ia sempre na batida do Jonatas: cada vez que ele tomava outro rumo, quebrava uns galhinho e ia deixando no chão umas seta. O Jonatas sabia que a gente ia atrás dele. Primeiro ele se aprofundou. Depois tentou voltar. Deu pra ver pelas seta: ele andava 1 km, quebrava, andava outro, quebrava de novo, lá mais pra frente invertia outra vez. Eu orava de joelho dentro do mato: “O Senhor fechou a boca dos leão sobre Daniel. Senhor, fecha a boca da onça sobre o meu filho. Fecha a boca da cobra, meu Senhor”.
(…)
No meio da mata, depois de muito ir e voltar, o Jonatas começou a subir pela lateral do Rio Branquinho. Ele na frente e nós atrás, na batida das pegada. Depois de oito dias nesse encalço, a farinha começou a acabar. Fomo obrigado a sair da mata fechada, jogamo o sol nos ombro e tomamo uma vicinal. Em Presidente Figueiredo, pedimo ajuda pra guarda municipal: eles iam entrar lá pela cabeceira onde nasce o rio e descer fazendo a varredura, ao tempo que nós fechava por baixo. Eles toparo e nós fomo – e nada. Nessa situação de pensamento, eu concluí que não tinha outro jeito: o Jonatas tá dentro da Mutembol, que é uma fazenda aqui da região. Então eu cheguei pro Gerson, pro Ricardo e pro Roberto: “Olha, é a última busca que eu vou fazer, porque eu não agüento mais andar no mato. Eu quando era novo tinha muita resistência. Sou mateiro profissional. Mas agora eu tenho 41 e não agüento mais. Eu quero saber se ocês tão comigo”. Os índio então responderam: “Tamo contigo até morrer, até onde cê quiser“. Nós arrumemo tudo nas costa: lona, goiabada, suco, leite, arroz de saquinho, espingarda, cantil, lamparina, lampião, dois litro de óleo diesel, o meu terçado de bainha. Comprei tudo em Figueiredo – tudo pendurado na conta do mercadinho.
Na sexta-feira retrasada, nós entremo de novo atrás dele. Subimo um pedação do rio, andemo um dia inteiro até o ponto que ele tinha que ter quebrado na Mutembol. Nós num sabia, mas o Jonatas tava a menos de 4km da gente. Quando começou a chegar o final da tarde, por essa passagem da 5 hora, encontremo um trecho de mato muito alto. Ia ter que cortar. O dia tava começando a escurecer e nós ficamo indeciso se não era melhor pernoitar por ali e retomar o trabalho no dia seguinte. Foi isso que nós fizemo, e eu me arrependo muito. Naquela madrugada caiu uma chuva muito forte, o tempo ficou frio, o barulhão da água e do vento na copa das árvore – o Jonatas pegou essa chuva todinha, né, tava ali do lado. No sábado de manhã nós abrimo a picada. Andemo. Era 9h30 pras 10 quando o índio mateiro avistou: “Olha ali onde é que tá lá o menino!” Jonatas tava sentado na beira de um igarapé. Tava deitado assim meio encostado num toco. Gritei e corri: “Meu filho, pelo amor de Deus!!!” Encontrei ele magro, magro, magro igual menino da Etiópia. Não tinha mais coxa, as costela dele todinha nas costa. Tava com a gandola aberta e só de cueca – todo evacuado. Peguei a cabeça dele no colo, ele todo mole: “Meu filho, meu filho!!!” Olhei e ele não tinha mais rosto – o rosto secou e o que ele tinha mais era olho. Um olho aboticado, regalado na cara. Ele olhou pra mim e fez que ia lagrimar. Depois soltou um gemido: “Uhhh…” Então fechou os dente e começou a endurecer. “Gerson, meu filho, acode seu irmão, traz o suco, tira o soro, rasga, bota na água, tira o cantil!!!” Aquela agonia. Depois, as juntinha dele começou a amolecer, as juntinha da mão, tudo. Eu dei compressa em cima do coração dele, pra baixo, apertando, apertando. Mas quando eu fui fazer boca a boca, ele prendeu inda mais os dente, trancando bem duro. Então eu comecei a gritar. A gente tava a 30km da estrada. Eu queria uma asa pra me tirar dali.
(…)
No sábado de manhã, o sábado 28, o Jonatas trancou os dente e morreu no meu colo. Antes, quando ele tava deitado sem força, a varejeira tinha botado uns tapuru na boca dele, entre os dente e o beiço. Nós retiremo os inseto. Eu limpei o corpo com repelente e óleo diesel, que era pra remover o resto de bicho – o cabelo tava cheio de ova, a pele cheia de carrapato. Vesti nele umas roupa que a Iraci tinha mandado, para o caso mesmo da gente localizar o menino. Eu abri uma rede, coloquei o corpo dele lá dentro, costurei, trespassei uma vara comprida pra poder carregar. Fui sozinho na frente procurar ajuda. Botei pra andar. Os outros três veio atrás, carregando o Jonatas. Onde eu passava, dava chute nim pau com meu coturno. Sentia muito remorso-desgosto, muita ira de raiva. Porque se fosse filho de rico, tava tudo aí rodando, os helicóptero, o pessoal tudo atrás. Aqui perdeu um velho outro dia, veio até cão farejador, exército, avião. Mas o velho tava em Manaus, mentindo pra mulher. O meu filho não: o meu filho precisava de verdade. Por isso eu gritava e reclamava de Deus: “Por que me abandonaste, Senhor? Por que abandonaste meu filho?” Quando escureceu, dormi sozinho no mato: sem fogo nem luz, eu armei uma rede bem alta, aproveitando o tronco de duas árvore. Quando eu entrei na rede, o breu da floresta já tava bem escuro – o breu da Floresta Amazônica. Passei a noite todinha chorando: um vazio danado, um buraco bem grande dentro de mim.
De manhã cedo eu continuei. Saí na estrada às 9 da manhã de domingo. Quando voltei com os pessoal pra ajudar no resgate, encontrei o Gérson e os dois índio saindo da mata. “Cadê o Jonatas, meu filho?” O Gérson: “Ninguém agüentou mais carregar, meu pai, tava fedendo e inchando, ninguém agüentou. Então nós enrolemo a lona na rede dele e amarremo lá em cima numa árvore, longe dos bicho, que era pra depois resgatar”. O resgate aconteceu só na segunda-feira. Os bombeiro arrumaram um helicóptero. O Jonatas veio amarrado do lado de fora, pendurado numa corda. Depois velemo e enterremo.
(…)
Uma lição dessa história? O senhor põe isso aí: o pai, quando tiver seu filho, tem que fazer por ele enquanto ele tá vivo. Depois que morre, cabou-se.
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Pode me chamar de piegas, mas o relato do pai do menino que ficou perdido 50 dias na Floresta Amazônica publicado no Estadão é de cortar o coração.
O uso de adjetivos e a ¨narração peão¨ me lembraram de Guimarães Rosa.
hitchcock e truffaut na íntegra
Sabe as entrevistas entre Alfred Hitchcock e Francois Truffaut que viraram um catatu bom bagaraí e numa edição lindona da Companhia das Letras (e já esgotado)? O aúdio na íntegra tá disponível no If Charlie Parker Was a Gunslinger, There’d Be a Whole Lot of Dead Copycats (puta nome bom de blog).
modern music masters na parede







Porra, de babar esta galeria de posters que o Stephen Alcorn criou pra exposição Moder Music Masters.
Interessou? 500 dólares cada, assinado.
o multi-touch nos beats
É, esta história de multi-touch tá começando a dar indícios que vai invadir áreas bem além da tecnologia pessoal…
O protótipo chama Attigo TT e foi criado por um britânico chamado Scott Hobss.
caco galhardo e o sono masculino

Estas piadas cotidianas do Caco Galhardo (tipo a da idéia brilhante) são as melhores.
o captcha 3d do radpisahre

E esse novo captcha do RapidShare, hein? Pelo menos, é mais fácil de distinguir que os gatinhos/cachorrinhos antigos.
novo last.fm em mãos
Convite inesperado no começo da tarde para testar a nova interface do Last.FM. De cara, os artistas mais ouvidos ganharam fotos, com as tags mais comuns sobre as imagens.
Na coluna da direita, um player em Flash toca as músicas mais ouvidas do usuário, logo acima do feed de atividades dos seus contatos (olha o Facebook aí de novo).
A página inicial agora ilustra as músicas ouvidas recentemente com imagens dos artistas, além de adicionar às indicações de bandas com quais sons que você escuta elas são parecidas.
A caixa de comentários deixou sua tímida participação na antiga versão para virar uma espécie de scrakbook mesmo no Last.FM, ocupando o final da coluna central.
Pelo menos numa primeira batida de olho, a melhorada é boa. Vamos usando.
O beta, ainda fechado pra convidados, não vale ainda pros canais de vídeos, eventos ou tabelas musicais.
leituras 24 de junho
Na Rolling Stone, o olho dá o tom da matéria: “na era do MP3, a qualidade sonora é pior que nunca“. Leia e vá ouvir “Thunder in the mountain”, do Bob Dylan, e “Around the world”, do RHCP, pra entender o ponto. Fica a dica: torrents, de 256 Kbps pra cima.
Com o projeto de lei que cria a profissão de escritor em tramitação, Jonas Lopes pergunta a Milton Hatoum, Sérgio Rodrigues e Antonio Fernando Borges se a profissão precisa de oficialização formal.
Dentro do Google Book Search (ou Busca de Livros, ao seu gosto), Helen Caldwell explica por que “Dom Casmurro” é o “Otelo” brasileiro e traça relações entre o mouro cego de ciúme de Shakespeare e o bipolarismo de Bento Santiago de Machado de Assis (aliás, Machado ou Guimarães?).
Na CNet, Stephen Shankland entrevista longamente Udi Manber, o responsável pela qualidade dos resultadosde busca apresentados pro usuário. Manber é o chefe do enxuto grupo responsável pelo algoritmo do Google (o NYTimes já tinha entrado lá), o que faz dele um figurão abaixo apenas do triunvirato.
No Wall Street Journal (é, é fechado, eu sei), Robert Guth explica a conturbada relação entre Bill Gates e Steve Ballmer, que viu seu emprego ser questionado após o término das negociações com o Yahoo e como a saída de Gates pode piorar ainda mais a situção de Ballmer, no tipo de matéria que só alguém com tempo, fontes e competência consegue.
O último e motivo da ilustração não é uma leitura: o Viva Calaca! conta em 3 minutos, por meio de caveiras dançantes e uma animação de deixar ilustrador babando, a história por trás do Dia dos Mortos, tradicional no México (a “santa” do Dia de los Muertos, Dona Muerte, enfeita minha mesa de jantar bela e magrela apoiada num cactus depois da viagem pra lá).
naked gun auto
Descubro (via Joystiq) que a abertura do badalado Grand Theft Auto 4 é uma homenagem à clássica introdução do foda Corra que a polícia vem aí. Fuçando o YouTube, encontrei uma ótima também do Family Guy.
chávez, o truman bolivariano
Chávez, sitting at the stage desk, drew a diagram on a large white card, and, holding it up to the “Aló Presidente” cameras, told viewers that he’d been thinking about a new “windfall profits” tax on oil companies.
He called out to Rafael Ramírez, the president of P.D.V.S.A.—a tall, blue-eyed man who resembles Tim Robbins—and he promptly stood up and began taking notes, nodding furiously.
This was not a rehearsed moment; to an unusual degree, “Aló Presidente” is Chávez’s government in action, and it is a government that Chávez does not so much administer as perform live. A couple of Chávez’s younger advisers told me that they frequently felt like supporting actors in Venezuela’s own “Truman Show.”
Na New Yorker, Jon Lee Anderson, biógrafo de Che Guevara, traça um longo perfil de Hugo Chávez entre viagens no avião presidencial, conversas com membros do Governo Norte-americano, presença na gravação do ¨Aló Presidente¨descrito acima e visitas surpresa a Cuba.
Tungado do blog do Douglas Duarte, diretor do documentário ¨Personal Che¨, que chega a São Paulo nesta semana.










