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carta capital: sobre o vácuo tecnológico nas periferias
(Publicado originalmente no site da Carta Capital)
A natureza abomina o vácuo. A frase, usada supostamente para que Aristóteles conseguisse explicar a teoria física de que todo espaço é sempre preenchido por algo, pode muito bem ser aplicada pela maneira como o papel das LAN houses vem se modificando no mercado de internet do Brasil.
Dados da pesquisa TIC Domicílios 2009, divulgados pelo Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação (CETIC.br) em abril, mostram que, no ano passado, os brasileiros acessaram a internet mais a partir de casa do que a partir das LAN houses (48% contra 45% dos acessos nacionais, respectivamente).
Vale lembrar que os dados do CGI.br não contemplam iniciativas de popularização de conexões de banda larga, como pacotes populares oferecidos em São Paulo a partir do final de 2009, ou o Plano Nacional de Banda Larga, oficializado pelo Governo Federal em maio mas ainda longe de se tornar realidade.

O principal motivo pela liderança da LAN house desde 2006 estava no valor: o preço de uma conexão doméstica era bastante alto, ainda que programas federais, como o Computador para Todos, tenham barateado o custo dos equipamentos. A inclusão digital batia no teto, como já discutimos aqui, pela carência de conexões.
Na falta de um “Banda Larga para Todos”, a estabilidade econômica foi suficiente para que a adoção das conexões domésticas crescesse, aponta o coordenador do CETIC.br, Alexandre Barbosa.
A classe C, finalmente, começou a contratar planos domésticos de banda larga, impulsionando o mercado nacional. Some a isto os programas de incentivo da adoção de banda larga e temos uma tendência que deverá se aprofundar nos próximos anos.
É cedo, porém, para imaginar o fim das LAN houses por dois motivos: a penetração de banda larga suficiente para que todos tenham conexões domésticas ainda deve demorar alguns anos e há uma transformação em curso que amplia o papel da LAN house dentro das comunidades carentes.
Alguns dos exemplos passam longe da trivialidade de serviços complementares como digitação de trabalho, venda de chiclete ou cópia de documentos.
“A LAN house pode virar também um centro de consumo financeiro informal. No interior do Brasil, conheço casos de moradores que queriam comprar passagem de avião e o dono emprestava o cartão e fazia até um crediário improvisado”, afirma Carla Barros, pesquisadora da ESPM que estuda o impacto da LAN house nas comunidade de Vila Canoas e Dona Marta, no Rio de Janeiro.
O que Carla percebeu até agora é que a relevância da LAN house entre os moradores vai além dos games online ou da rede social. Em ambientes com poucas opções de lazer, os atendentes assumem a função de guia, ensinando como explorar serviços municipais online, indicando novos sites ou games e selecionando músicas do seu gosto para carregar no MP3 player de quem frequenta a LAN house.
E aí caímos de novo na frase da introdução. Em periferias carentes de alternativas, as LAN house ocupam não apenas os espaços abertos pela exclusão digital, mas também pela financeira, pela educativa e pela de entretenimento. Elas deixam de ser lugares onde os mais jovens assistem a vídeos no YouTube e jogam World of Warcraft e se transformam em centros de inclusão da sociedade.

Não por coincidência, as LAN houses começam a chamar atenção para o potencial de empreendedorismo que representam. Entre os finalistas do prêmio Conexão Cultura, por exemplo, você encontra algumas que abrigam cursos profissionalizantes ou oferecem acesso a deficientes visuais.
Primeiro passo na regulamentação da atuação das LAN houses, o Projeto de Lei 4361/04, em tramitação na Câmara dos Deputados, não elimina o vácuo, entretanto facilita o caminho de quem luta contra ele.
a volta da carta capital
Segundo projeto engatilhado em 2010 (podcast foi o primeiro): depois de um ano congelada pelo mestrado, a coluna mensal na Carta Capital online voltou hoje, abordando como anda a transparência pública online no Brasil. Será mensal.
carta capital: o google brasil entre as estrelas e a escória
Carta Capital da quinzena (do mês?). Original aqui.
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Devo confessar que muito me assusta o ímpeto dos que acreditam que o Google replica no Brasil todo seu potencial de inovação e assustadora competência internacional. Isto quer dizer que a operação nacional do Google é desprezível? Muito longe disto e sobram exemplos para contradizer a tese: a ótima adaptação do Google Maps para o mercado nacional, feito totalmente nos laboratórios do buscador em Belo Horizonte, é, provavelmente, a melhor delas.
Há um boato, não comprovado como todos os boatos, que engenheiros brasileiros, locados também em BH, são os únicos com permissão para mexer no PageRank, o algoritmo de busca e galinha dos ovos de ouro do Google, fora da sede da empresa, na Califórnia.
Mas, como bem observou uma colega de trabalho, como pode uma empresa que traz constelações distantes ao usuário dentro de um navegador ou financia um concurso milionário para incentivar a corrida espacial não conseguir identificar e limar conteúdo criminoso (pornografia infantil, notoriamente) do Orkut, seu fenômeno social entre internautas brasileiros?
A assinatura do Termo de Ajustamento de Condura (TAC) entre Google Brasil e Ministério Público Federal de São Paulo, feito no começo de julho, tem muitos percalços longe da credibilidade que o brasileiros atestam ao buscador criado por Sergey Brin e Larry Page e algumas conseqüências muito boas para a segurança digital dos brasileiros.
A crescente pressão nas relações entre Google Brasil e MPF no decorrer destes quase dois anos em que a fiscalização no Orkut começou a se fazer necessária transformou deu contornos de literatura (barata) ao caso, com dois antagonistas que misturam desprezo pela frase alheia com orgulho por seus últimos passos.
Sejamos mais claros quanto a fatos. Em fevereiro de 2006, a ONG baiana SaferNet encaminhou ao MPF relatório denunciando a existência de conteúdos considerados criminosos, como pornografia infantil, incitação ao ódio, venda de remédios controlados e tráfico de drogas, dentro do Orkut, o que fez com que o MPF intimasse o presidente do Google Brasil, Alexandre Hohagen. Apenas de pornografia infantil, eram mais de 1,2 mil comunidades, aponta o documento.
Começa aí o calvário. Na primeira etapa do processo legal, o Google Brasil adotou uma postura altamente questionável: o responsável pelo Orkut não era o braço brasileiro, mas sim a matriz do buscador, identificada como Google Inc. em esclarecimentos públicos.
Por mais absurdo que soasse, o argumento tinha como razão um impedimento jurídico. Enquanto o MPF exigia provas dos crimes praticados para encaminhar à Justiça um pedido de quebra de sigilo, a legislação dos Estados Unidos, onde estão os servidores responsáveis por armazenar os dados criados e trafegados no Orkut, força a exclusão de imagens de pornografia infantil no ato de suas descobertas.
No impasse, o Google Brasil resolveu lavar as mãos, prometendo “repassar as denúncias à matriz“. Acrescente um agravante: o advogado contrato pelo buscador para lidar com a imprensa, Durval Noronha, que tem um escritório de advocacia homônimo, se notabilizou pelos decibéis que atingia quando conversava com a mídia.
Dezoito meses depois, Noronha continua conhecido no meio pelos gritos que dava com jornalistas como se a potência do seu gogó contornasse a falta de um argumento cabível para que o Google Brasil não combatesse os crimes dentro do Orkut. Descobriu-se mais tarde que Noronha foi responsável por defender o traficante norte-americano William Reed Elswick, refugiado no Brasil e ajudado por Edmar Cid Ferreira.
No primeiro turning point da história, a tensão no caso atinge o ápice em agosto, quando o MPF pede à Justiça o fechamento do Google Brasil, alegando seguidos descumprimentos de ordens judiciais que exigiam a quebra de sigilo de dezenas de usuários suspeitos de crimes.
“É uma questão de soberania do Estado brasileiro. Uma empresa que se instala no País, sob as leis brasileiras, tem o dever de atender às solicitações da Justiça”, afirmou o procurador da República Sérgio Suiama, na época. Ironicamente, o aparente desinteresse do Google Brasil junto à truculência de Noronha alçaram MPF e SaferNet ao posto de defensores dos interesses nacionais frente à multinacional estrangeira. Os personagens da novela estavam a postos.
O antagonismo se manteve sem muitas mudanças no ano seguinte, quando, em um mal explicado teste, o Google Brasil retirou a publicidade integrada ao Orkut, demitiu Noronha e, alegando crescimento do escritório nacional (balela), anunciou uma divisão dentro do Google Brasil para lidar com pedidos da Justiça. Nos bastidores, negociações com Ministério Públicos Estaduais e Federais de 5 Estados (Minas Gerais, Ceará, Pernambuco, Acre e Rio de Janeiro) avançavam a passo de lesma.
Aí vem o segundo turning point. Com a criação da CPI da Pedofilia, Hohagen é intimado a depor no Senado após ignorar o primeiro convite do comissão, presidida pelo senador Magno Malta (PR-ES), que já teve seu nome envolvido no escândalo das Sanguessuas. Pressionado, o Google Brasil contratou o ex-ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, para elaborar sua estratégia de defesa. No começo de abril, Hohagen falta a confraternização de funcionários do Google no México para depor à CPI e prometeu “limpar o Orkut“.
Em julho, o Google Brasil anuncia que cumprirá suas promessas, instalando filtros para impedir a publicação de imagens de pornografia infantil e criando um canal de comunicação com o MPF que permitirá que as denúncias cheguem ao buscador, que quebrará o sigilo dos usuários apontados e enviará informações pessoais, como IP, para a Justiça. Há ainda, soluções pontuais, como a distribuição de cartilhas de educação digital a crianças e reuniões com autoridades para avaliar os avanços no combate à pedofilia.
No meio do caminho, um funcionário da ArkoAdvice, consultoria contratada pelo Google Brasil, é preso lendo documentos sigilosos que apenas membros da CPI poderiam ter acesso, como nomes de crianças que sofreram abuso sexual e foram intimidas a depor. A consultoria não gosta do termo “lobista” empregado (com propriedade) pelo IDG Now! e, em contato com este colunista, mente ao afirmar que seu funcionário não viu nada demais.
O depoimento do lobista à Polícia do Senado Federal, publicado na íntegra no Chá Quente junto ao texto do TAC, desmente a consultoria.
A notícia expõe o Google Brasil a uma situação delicada no mesmo dia em que Hohagen é novamente chamado para o Senado, o que faz com que o buscador encerre o contrato que tem com a ArkoAdvice, no segundo prestador de serviços demitido em pouco menos de dois anos.
A assinatura do TAC coloca, finalmente, um fim à petulância que o Google Brasil demonstrava no início e dá espaço para que tanto MPF como SaferNet gastem tempo atrás dos outros 10% de pedofilia na internet brasileira que não tem relação com o Orkut.
O próximo alvo, admite Suiama, são serviços de e-mail gratuitos, que podem servir como repositórios online de pornografia infantil, como o Hotmail, da Microsoft, ou o Gmail, do próprio Google. Há indícios de aliciamento de crianças por softwares de mensagens, como o MSN Messenger, mas o MPF admite ser muito difícil fazer qualquer tipo de monitoramento.
O que mudou no antagonismo entre MPF e Google Brasil? A pergunta suscita respostas que pendem para o lado escolhido.
O Google Brasil se diz aliviado por ter chegado a um acordo em que seus funcionários responsáveis por avaliar se as denúncias de pornografia infantil realmente o são não seriam enquadrados pela legislação brasileira, que prevê o envio do conteúdo como crime, mas não seu armazenamento. O MPF segue um discurso pontuado por “finalmentes” e palavras que seguem o caminho de um império que se curvou às regras regionais do país.
Em quem acreditar? Na imaturidade geral, fique com seu raciocínio. Melhor não dar atenção a uma rixa que envolve mais os próprios nomes que a razão primordial da lambança: a segurança dos brasileiros na internet.
carta capital: o brasileiro online pelos olhos de isabella e luminha
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O caso Isabella Nardoni já deu e não sou eu que estou falando. É você. Quer dizer, é o Google Trends, usando as palavras que você e milhões de outros brasileiros consultaram no buscador nos últimos trinta dias.
O gráfico traçado pelo Google com as procuras pelo nome de Isabella Nardoni é bem claro: há uma explosão de buscas na última semana de março (o crime aconteceu no dia 29), com uma curva que atinge seu ápice nos primeiros dias de abril, quando a divulgação dos detalhes sobre as primeiras investigações fez com que a opinião pública se voltar para o casal Alexandre Nardoni e Ana Carolina Jatobá, preso preventivamente no dia 3 de abril.
O interesse vai diminuindo até os dias que antecipam a entrevista que o casal daria ao Fantástico, em 20 de abril, com o fim da perícia técnica sobre o caso e a convocação do casal para depoimento com o relatório final praticamente concluído nas mãos da Polícia Federal. Depois disto, uma queda com alguns soluços de interesse, que deixa a procura pelo nome de Isabella Nardoni um pouco acima do nível (praticamente zero) antes do crime.
Em seu seminal “A Busca”, o jornalista e pesquisador John Battelle explica que os buscadores, como o próprio Google, Yahoo e MSN Live, da Microsoft, representam um registro sobre os principais desejos que os usuários têm, classificados por ele como “banco de dados das intenções“.
Quer encontrar uma locadora de carros? Coloque “aluguel+carros” no buscador. Aprender a fazer uma bomba plástica? “bomba+plástica+caseira“. Procurar obras de Herman Hesse? “bibliografia+herman+hesse“. Relembrar a escalação do Santos campeão brasileiro de 2002? “santos+campeão+2002“. Saber mais sobre Isabella Nardoni? “isabella+nardoni“.
Em síntese, “esta informação representa, de maneira agregada, um lugar único para as intenções da humanidade – um banco de dados gigantesco de desejos, necessidades e gostos que podem ser descobertos, supostos, arquivados, rastreados e explorados para todos os tipos de fins”, explica Battelle.
Um outro exemplo de infanticídio reflete um pouco (ainda que em menor grau) este interesse súbito da população por um determinado assunto. O caso do carioca João Hélio, arrastado no carro da mãe em fevereiro de 2007 após um assalto no Rio de Janeiro, viu uma comoção semelhante online – o mesmo Google Trends mostra a explosão de buscas pelo nome do garoto entre fevereiro e abril daquele ano. Depois, o silêncio.
As buscas são apenas uma porta de entrada para o poder de mobilização que a internet oferece em momentos de comoção popular. Você pode achá-la popular demais, mas a rede social Orkut, sucesso por terras brasileiras, indianas e paraguaias, é o melhor termômetro online que você pode encontrar sobre reações do brasileiro a polêmicas na internet.
A mobilização fervorosa está lá, representada tanto pelas mais de 900 comunidades que usam o nome “Isabella Nardoni” (muitas em categorias sem relação com um crime, como “Moda e Beleza” ou “Culinária, Bebidas e Vinhos”), como pelos mais de 100 mil comentários recebidos pelo perfil da mãe da menina, Ana Carolina de Oliveira, e pelas conseqüentes armadilhas virtuais, que usam assuntos em discussão para tentar roubar usuários distraídos ou sem instrução.
Próximo ao dia em que a procura pelo nome de Isabella atingiu seu ápice no Google Brasil, encontrei Luminha dentro do Orkut. Seu perfil estava linkado dentro de uma comunidade da própria rede social, chamada Piores Perfis do Orkut (PPO). A maneira apaixonada como os brasileiros abraçaram a rede criada pelo engenheiro turco do Google em suas horas vagas resulta em material de sobra para sites de escárnio alheio – o Pérolas do Orkut e o PPO são os dois principais.
Luminha não é exatamente sexy como se descreve em seu álbum de fotos. Ao segurar a câmera para um auto-retrato, enquanto mordisca a haste do óculos na tentativa (falha) de sensualidade, é possível ver pelas dobras em seu braço que Luminha está muito acima do peso do que um homem de gosto médio consideraria erótico. As fotos em que aparece com as mãos espalmadas em uma árvore ou vestindo um jeans apertado olhando maliciosamente para trás também passam longe do sentimento erógeno que suas legendas tentam transparecer.
Luminha, porém, está totalmente no seu direito. Não há qualquer menção nas regras de conduta do Orkut (quiçá na Constituição do Brasil) que se prestar ao ridículo seja ilegal, contra as regras. Ainda assim, o link que Luminha ganhou na comunidade PPO fez com que seu perfil se transformasse no epicentro da manifestação popular online, de maneira diametralmente oposta à solidarização por Ana Carolina de Oliveira.
Em seu álbum de recados, aberto para qualquer usuário da rede, acumulam-se mais de 900 mensagens, a maioria de tom agressivo e sarcástico, provavelmente de pessoas que não conheciam Luminha até que seu perfil caísse nas graças do PPO. Entre os recados, alternam-se cantadas irônicas com ofensas pessoais, muitas racistas (Luminha é negra).
De um lado, a comoção nacional nas comunidades dedicadas a Isabella Nardoni. De outro, a internet como praça para o linchamento público, potencializado pelo anonimato. Em ambos, um grupo na casa dos milhões que, mesmo sem qualquer envolvimento pessoal com nenhum dos lados, se dedica às questões sem uma explicação muito clara do porquê.
No grupo em homenagem à menina com mais participantes (além dos 165 mil), o moderador diz que seu objetivo é “não deixar que o caso seja esquecido”. O histórico de João Hélio online deixa claro que o propósito tende a falhar. Há sempre uma nova Luminha para que voltemos nossas atenções – independente da nossa intenção.
carta capital: o Google ganha ao perder o leilão dos 700 MHz
Sistema de busca, aplicativos dentro do navegador, gerenciamento de e-mails, mensageiro instantâneo, software geográfico e plataforma de publicidade.
Se o acúmulo de campos em que atua (e tem um sucesso estrondoso) faz com que você faça parte do grupo daqueles que têm medo do Google, saiba que, apertando, ainda cabe mais um pra empresa de Sergey Brin e Larry Page.
O primeiro passo veio na semana passada, por meio de uma derrota. Ao invés de simplesmente se focar no “fim” (aonde usuários vão quando estão conectados à rede), o Google pretende apelar para o “meio” (provendo a própria estrutura para que o usuário acesse seus serviços).
Em 20 de março, a Comissão Federal de Comunicações (espécie de Anatel dos Estados Unidos) divulgou detalhes sobre o leilão do espectro a ser vago pela TV analógica, dando a vitória à Verizon e à AT&T, operadoras tradicionais no setor, nos dois principais dos cinco blocos em leilão. Interessado e na briga, o Google não levou nada.
Antes de tudo, o que leva o Google a se interessar por um setor onde não tem a mínima experiência? Em poucas palavras, a transição completa da TV analógica para a digital nos EUA, programada para fevereiro de 2009 (enquanto o Brasil planeja relançar seu combalido sistema de transmissão), vagará um bom espaço do espectro que ficará sem uso.
Um dos cinco blocos em que a FCC repartiu o espaço vago, o Bloco C, tem características técnicas que permitem uma rede de dados com velocidade e alcance suficientes para um serviço de banda larga nacional.
Já experimentando conceder acesso WiFi gratuito na região de Mountain View, o Google viu a chance de oferecer o acesso nacionalmente e realmente começar a agir como o “meio” para que mais pessoas chegassem ao “fim” –seus serviços ou sua plataforma de publicidade.
Não deu. Juntas, Verizon e AT&T gastaram 80% dos cerca de US$ 20 bilhões que a FCC arrecadou com o leilão, levando 336 licenças de exploração e, por parte da Verizon, o desejado Bloco C (uma tonelada de dados sobre o leilão está neste arquivo de texto do FCC ).
E porque o Google, que fechou 2007 com US$ 14,2 bilhões em caixa, não aumentou a oferta total de US$ 9,3 bilhões feita pela Verizon? Porque já tinha ganhado o que queria. Questão é que a FCC formulou uma cláusula no leilão exigindo que, após atingir o preço de reserva, o vencedor do Bloco C deveria abrir a rede que haveria de ser construída para softwares e produtos alheios.
Você deve conhecer alguém que já teve problemas com as altíssimas restrições que operadoras impõe a seus clientes. O Bluetooth travado em aparelhos, a internet difícil de ser navegada, o portal apenas com conteúdo próprio, as taxas abusivas para acessar sites convencionais – minha imprecisão deve ser facilmente compensada pela variedade de exemplos do tipo.
O modelo comercial das operadoras, alvo de reclamações freqüentes, sempre se baseou no conceito do “jardim murado”: você entra, mas existem diversas dificuldades para sair. Dados os investimentos milionários feitos por elas em estrutura, existe um medo comum de que as redes se tornem apenas um “meio” para outros conteúdos.
Por isto, você é obrigado a se deparar com um portal próprio da sua operadora com conteúdos sempre exageradamente caros e nem sempre variados – muito do dinheiro ganho com os clientes vem daí.
O primeiro passo para uma mudança neste modelo de negócios veio em 2007 por outro gigante de tecnologia em sua segunda investida no setor – a primeira foi, igualmente, uma derrota. Ao apresentar ao mercado o iPhone, a Apple também entortava as relações que fabricantes tinham com operadoras.
Ao invés de simplesmente se aliar à fabricante para custear aparelhos que prendessem o usuário à sua própria rede por longos planos pós-pagos, a AT&T cedeu poder à empresa de Steve Jobs confiando em outra idéia – a de que um aparelho novo, com liberdade de acesso a conteúdo, levaria a mais tráfego.
Deu certo. “Clientes gastarão mais tempo nos aparelhos (e, logo, nas redes), recebendo contas cada vez maiores e gerando maiores receitas para todos”, diz Fred Vogelstein, em uma excepcional matéria investigativa na Wired sobre como o iPhone foi concebido.
Mesmo sem ganhar a licença para montar a sua própria estrutura para banda larga sem fio nacional, o Google ganhou a certeza que poderá ver seus aplicativos (principalmente o Android, sua plataforma aberta de desenvolvimento para celulares ) rodando no Bloco C, independente do vencedor, numa espécie de simbiose boa apenas para um lado.
Além de levar seus produtos já populares no desktop para uma plataforma móvel cada vez mais confortável para navegação online, o Google tem a ótima oportunidade de transferir o sucesso da sua plataforma de publicidade AdSense do navegador para o celular, incentivado por números animadores.
Ainda incipiente, o mercado de publicidade móvel, estimado em US$ 24 bilhões em 2006, deverá movimentar US$ 55 bilhões até 2011, segundo a Mobile Marketing Association, um naco que a gigante de buscas e publicidade não poderia se dar ao luxo de perder.
Num post no seu blog de política pública no mesmo dia da divulgação dos resultados, o Google admite que “mesmo que não tenha ganho nenhuma licença do espectro, o leilão culminou em uma grande vitória para os consumidores norte-americanos”. “Teremos mais para falar sobre o leilão em um futuro próximo”, promete o buscador, num comentário carregado de cinismo.
Palavras não são necessárias – o barulho das moedinhas que cairão no cofrinho do Google compõe a mensagem.
carta capital: nossa “caravana rolidei” digital.
Vou tentar falar isto da maneira mais delicada, mas, caro leitor, por favor, não me entenda mal: você faz parte de uma minoria no Brasil.
Quem diz isto não sou eu, mas os dados compilados pelo Núcleo de Informação e Coordenação (NIC.br) ligado ao Comitê Gestor da Internet (CGI.br) para a terceira pesquisa Tecnologias da Informação e Comunicação no Brasil (TIC) Domicílios 2007.
Baseado nas respostas de 17 mil lares brasileiros, o TIC Domicílios 2007 (uma apresentação com as principais estatísticas pode ser baixada do site do NIC) se apresenta como um dos retratos mais fiéis do mercado brasileiro de tecnologia, exageradamente acostumado a babar pelas novidades tecnológicas de última geração lá de fora.
Olhemos, então, para o nosso próprio rabo. A primeira constatação do TIC 2007 é que ainda somos um país majoritariamente desconectado. Ainda que esteja em queda nos últimos três anos, a taxa dos brasileiros que nunca usaram a internet ainda é maior que os que já – 59% contra 41%.
Esta sua atitude de abrir o navegador, clicar sobre determinado link e abrir esta página para ler esta coluna (assim como minha própria iniciativa de escrevê-la para uma mídia eletrônica) transforma você, o internauta, em minoria.
Soa absurdo, em pleno 2008, mais da metade da população do Brasil não ter nunca se conectado.
A cifra soa ainda mais absurda pelo recorde de navegação que os mesmos brasileiros têm frente a franceses, norte-americanos e australianos. Em janeiro, diz o Ibope//NetRatings, o brasileiro que tem banda larga em casa ficou, em média, 23 horas e 12 minutos (ou quase um dia inteiro) navegando.
Os conectados em banda larga são 21 milhões. Baseados nos 186 milhões de brasileiros, os desconectados são quase 110 milhões. A desigualdade no Brasil vai além da distribuição, nos mostra a comparação entre as estatísticas.
É evidente também que os 59% de desconectados tendem a cair com o tempo até que atinjam um patamar mínimo, como o detectado em países com altíssima penetração de telecomunicações, como a Coréia do Sul, e é baseada na segunda constatação que esta diminuição se apóia.
Se há alguém promovendo a inclusão digital no Brasil, não é o Governo Federal – pelo menos no que diz respeito a acesso. Em 2007, as LAN houses, termo adotado pelo brasileiro para designar o que os estrangeiros conhecem como cybercafe, lideraram o acesso à internet no Brasil, citadas por 49% dos entrevistados.
Iniciativas de acesso público à internet, como TeleCentros ou AcessaSP, promovidas pelos governos municipal e estadual de São Paulo, correspondem a apenas 6% dos acessos.
Mais que simplesmente levar internet em regiões onde não há ação da administração regional em inclusão digital, as LAN houses indicam a ascensão de um novo perfil de internauta brasileiro.
Na média, o responsável pela explosão do acesso das LANs é um usuário pobre, que ganha até dois salários mínimos por mês, com até 24 anos de idade, sem distinção clara entre sexo e que se concentra no Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
O aumento da penetração e uso de LAN houses foi tão forte que fez com que o acesso por banda larga em casa, no trabalho ou na escola, beneficiados pelo barateamento de planos das operadoras, parecessem estáveis.
Por mais que não existam dados oficiais (o TIC 2007 não contemplou tal parâmetro), é inegável que a mistura entre isenção de PIS/Cofins com crédito abundante do programa “Computador para Todos”, este sim do Governo Federal, ajudou a equipar as LAN houses nas regiões pobres onde mais cresceu.
Os dados do TIC Domicílios 2007 evidenciam que, no ano passado, a inclusão digital chegou realmente em quem deveria, muito embora o exagerado uso de redes sociais (leia-se Orkut), comunicadores instantâneos e e-mails caracterize o grosso do acesso entre os recém-incluídos.
Na reunião do NIC.br onde os dados foram apresentados, Rogério Santanna, secretário de logística e tecnologia da informação do Ministério do Planejamento, deixou claro que o governo estuda um pacote de incentivos para aumentar a penetração de banda larga, em projeto feito junto ao Ministério das Comunicações, em uma espécie de “Banda larga para Todos”.
Com os PCs, o governo fez (e muito bem) seu trabalho – não seria exagero considerar o “Computador para Todos”, iniciativa que “demandou vontade, trabalho, caneta e tinta”, como bem definiu Elio Gaspari, a política de maior sucesso na área tecnológica do governo Lula.
Enquanto o Governo Federal tenta repetir o sucesso que teve com computadores nas conexões banda larga, é a iniciativa privada pobre que vai espalhando a inclusão digital pelo Brasil. Não se sinta mal – é por culpa deles que, um dia, você virará maioria.






