Chá Quente

Jornalismo de tecnologia. Por Guilherme Felitti.

a bola é minha, cansei de jogar

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Na semana em que divulgou queda de 14,1% em publicidade (a verba que REALMENTE segura uma publicação) no quarto trimestre, o New York Times publicou um editorial defendendo a idéia que jornais deveriam ser uma espécie de ONG que não têm lucro como principal objetivo.

Por mais que, pelo momento em que foi publicado, esteja carregado de ranço, o texto do New York Times vale ser lido pela ousadia de propôr que jornais deveriam ser mantidos não pela publicidade ou pela circulação, mas pelas doações da sociedade. Os mecenas da Grécia antiga estariam de volta para bancar o jornalismo em uma sociedade livre, como reverbera o texto no seu início citando uma frase de Thomas Jefferson.

O próprio New York Times adianta o potencial risco de um jornal bancado por doações: a mesma legislação norte-americana que dá isenção de impostos àqueles que doam dinheiro proíbe que instituições ou veículos do tipo façam qualquer tipo de campanha a favor ou contra um político, por exemplo.

O hábito, tão disseminado nos Estados Unidos (o próprio New York Times endossou Obama a dias da eleição norte-americana), quase não serai sentido no Brasil, onde pouquíssimos veículos (como a Carta Capital, onde este blogueiro escreve sobre tecnologia) assumem publicamente uma posição que, quando não o fazem, costumam esconder em entrelinhas.

Vale a pena perder a liberdade de apoiar um candidato, mas continuar a vigiar uma administração pública, defende o editorial.

O jornal faz os cálculos: para manter uma redação independente e suprida suficientemente para realizar um bom jornalismo, seriam necessário 5 bilhões de dólares anualmente – o arrecadado com publicidade, online ou impressa, e circulação, o número seria abatido para os doadores.

Cinco bilhões de dólares é muita coisa. Pegue o exemplo da Wikipedia. Mesmo com a relevência construída como mais ampla e consultada enciclopédia online da internet, o projeto conseguiu arrecadar 6,2 milhões de dólares em sua última campanha para angariar fundos.

Pouco mais de seis milhões de dólares. Pelo histórico de jornalismo de qualidade ou pela relevância construída pelos anos fora da internet, o NYTimes tem um potencial muito maior para arrecadar verbas. Mas maior o suficiente para atingir a casa dos bilhões?

Em números, a grana arrecadada em publicidade online cresceu 6,5% para 1,77 bilhão de dólares em 2008. No total, porém, a receita por anúncios caiu 13,1% para 468 milhões (adivinhe porque?) pela queda na receita do impresso durante o ano.

Mesmo sendo um dos jornais que melhor vem apresentando novas soluções além da simples reprodução do texto impresso em hipermídia  - reportagens multimídia e o blog Open, onde vem divulgando APIs e novidades envolvendo programação, por exemplo -, o NYTimes é um dos estandartes da decadência financeira da imprensa impressa.

É o definhamento lento e ao vivo. Jornalismo de qualidade, porém, custa dinheiro. Se o New York Times vai atrás do modelo baseado em doações após se livrar do seu império (algo que já começou com a negociação da participação no time de beisebol Boston Red Sox), a dúvida fica no ar.

Update: o Silicon Alley Insider fez a conta: se enviar um Kindle para que cada leitor leia, de graça, o jornal diariamente, o NYTimes vai gastar metade da verba empregada para imprimir e enviar uma edição de papel aos leitores.

Written by Guilherme Felitti

January 31st, 2009 at 3:19 pm

Posted in internet

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