um longo desabafo travestido de esclarecimento
O comentário de Manoel Netto no post sobre minha descoberta do Para Francisco me chamou a atenção para um esclarecimento que se faz necessário sobre o jornalista que cuspiu fogo pelas ventosas sem dar nomes aos bois. Vou ser o mais sincero o possível contigo.
Um alerta: o texto a seguit não é apenas longo, mas também contém considerações pessoais sobre aquela velha relação entre jornalistas, assessorias, leitores e blogueiros com a visão de alguém de dentro. Se você já encheu o saco ou não lida bem com textos graaaaandes, há uma toneladas de outras coisas pra se ver por aí (este vídeo do Colbert, por exemplo).
Só leia se tiver saco de considerar aos argumentos.
Estou no meio de blogueiros e jornalistas. E, ainda assim, não consigo seguir uma conversa com qualquer um dos grupos sem concordar 100% em qualquer assunto que envolve blogs jornalísticos, conteúdo original e participação de leitores na Mídia estabelecida.
Só que anda-se no meio fio. Não está escrito em lugar algum que é preciso estar em algum lado para se conviver com ambos os lados – assim como não está determinado em lugar algum que ser de um lado inviabiliza ter contato com o outro. Teoricamente, não somos Capuletos ou Montéquios.
Mas empurra-se. No avançar da discussão nos comentários e no mensageiro, Netto afirmou que “quem tem opinião integradora sofre dos dois lados”. Concordo. E complemento: sofre quem não se encaixa por não haver uma terceira via. Por, inevitavelmente, você ter que ser de um lado e de outro.
Quer dizer: há uma terceira via. Quieta, enquanto a dicotomia se acentua na discussão entre os jornalistas que acham este papo de blog uma merda passageira e os blogueiros que acham que nenhum jornalista presta.
Este desabafo, você já deve ter notado, está muito atrasado. O hype em se falar sobre a questão blogueiros versus jornalistas já passou – não falou durante a Campus Party no fatídico dia em que o Rodrigo do Jacaré Banguela invadiu o cubo de imprensa vestido de dinossauro, tá falando o que agora?
Entenda que o nome do responsável pelo blog, lá cima, é exatamente o meu. E este desabafo se justifica não só por isto, mas por uma retomada de trilhos deste Chá que já explico pra ti. Não gostou? Passe pro próximo post ou simplesmente sai fora – te aconselho dar uma fuçada no del.icio.us, sempre com coisa boa e nova.
Talvez por interesse próprio na Nova Mídia e pela falta de um responsável direto da área no IDG (você conhece a estrutura do jornalismo brasileiro de tecnologia?), fui me aproximando da interação que o Now! tem com blogueiros e administradores de comunidades.
Foi algo natural e em nenhum momento a intenção era ser um rosto que representa o portal – era, simplesmente, entender quem publica conteúdo por si, dar uma relevância maior e estes quando havia qualidade e, mais que tudo, aproximar o noticiário dos leitores do IDG Now!.
Há um incômodo perene desde o começo: qualquer nova mídia ganha atenção especial de todos os envolvidos, que ficam interessados em entender um pouco o impacto desta na mídia já estabelecida – onde pode haver modificações e melhorias. Isto deve explicar a mania que alguns blogueiros que acompanho têm de linkar um outro blogueiro que reproduz determinada notícia de um grande veículo, quando o mais sensato seria simplesmente linkar direto pra fonte, ué.
Por um sentido, não é um tempo muito bom para ser jornalista de tecnologia no Brasil e isto está longe de ser simples lamúria.
Entenda: o principal mote da blogosfera no começo era que os do lado de lá do balcão poderiam fazer as notícias. Como jornalista, já ouvi muita merda de leitor que, embuído deste espírito, criticava da maneira feroz uma suposta incompetência ou parcialidade, muitas vezes alimentado por argumento algum. Era a fé de que aquilo que foi escutado se concretizaria. Um diz-que-me-disse.
Há um agravante: a tecnologia tem leitores que não conseguem entender que nem todo repórter é, antes de tudo, um fissurado. Se você conhece jornalistas de tecnologia, pergunte a todos quantos caíram na área por que queriam. Eu conheço um, entre dezenas.
Você pode encarar isto como uma falha do setor como um todo. Eu não consigo. O melhor estagiário com quem já trabalhei entrou no Now! sem qualquer referência de internet. Siglas, nomes de entindades, um histórico básico da tecnologia são coisas que se aprendem rápido. Farejar uma boa pauta e saber ouvir as pessoas, não.
É por isto que os caras que realmente manjam de tecnologia (mas não de comunicação) nas redações estão fazendo testes. Repórteres sabem um mínimo sobre o assunto e vão adquirindo o conhecimento específico na medida em que cobrem o setor.
Isto leva a erros, principalmente de ordem técnica. Alguns. Muitos. Vários. Terríveis. De bobeira. Passíveis de demissão. Questionáveis. Informações dúbias. Na maioria dos casos, faz-se o que se tem que fazer: corrige-se, afinal o objetivo é deixar o leitor com a informação mais próxima da realidade o possível.
Mas errar um ponto na versão de um software e receber as pedradas de leitores raivosos por um histórico de discordâncias com toda a imprensa é outra história. A capacidade de se falar com a Grande Mídia fez com que uma multidão de extremistas empunhassem seus paus, tochas e pedras e questionassem a competência da sétima geração da família de um jornalista pela inversão de um número de versão
Muitas (MUITAS!) das reclamações que eu pelo menos tenho contato diariamente são próximas a este perfil. Onde está a discussão? Onde estão os argumentos que sustentariam uma contestação? Onde estão os leitores que ajudariam o noticiário a ficar mais amplo e completo?
Há, na matemática, algo chamado Princípio de Pareto que determina que um grupo pequeno é responsável por vasta maior participação em determinado setor. O princípio vale para distribuição de riquezas, para usuários de banda larga e para quem edita artigos na Wikipedia. Na internet colaborativa, Pareto também se faz presente.
A tal da ¨cascata de opinião¨citada por James Surowiecki no seu ¨The wisdom of the crowds¨ se comprova pelo enorme eco que a opinião de poucos tem na teórica ¨contribuição dos leitores para o debate público¨(atente para as aspas).
Basicamente, a teoria de Surowiecki dá conta dos incautos que afogam o próprio ponto de vista ou nem se dão ao trabalho de formulá-lo baseados na opinião alheia – ou no desejo social de não combater determinado raciocínio. Isto em tempos em que alguns minutos separam um leigo do seu primeiro blog.
São poucos os leitores que encorpam o noticiário, quase raros em comparação ao exagero daqueles que precisariam de uma aula de bom-senso e cidadania antes de empunhar um teclado. Ok, Guilherme, você está exagerando. Talvez. Há correções, nem sempre educadas. Muitas das ofensas, quando rebatidas, são seguidas por um silêncio enorme, como se quem atira as pedras não esperasse uma resposta.
Talvez o jornalista se apresentar na frente do leitor, como o cara normal que realmente é, desmontasse aquela idéia idiota de alguns leitores que jornalistas deveriam ser máquinas infalíveis, que incentiva o leitor-ogro a empunhar as pedras.
E isto me leva novamente ao dinossauro. O que mais me incomodou (ainda que houvesse a resposta bem-humorado dos jornalistas colados ao vidro) naquele protesto é que o alvo da manifestação (fodidamente válida) não estava dentro do cubo.
Eram, em sua maioria, repórteres iniciando carreira que têm que se balançar entre um chefe na redação exigindo pautas questionáveis por vezes (confesso que não foi meu caso na liberdade do blog do Now!), um prazo para que os toques sejam entregues em forma de matéria e um grupo de gente empenhado em tirar sarro do seu trabalho.
Mais que isto: pessoas envolvidas na manifestação procuraram a mesma Grande Mídia dinossaura semanas depois para vender projetos próprios. Falta de coerência? Totalmente.
Os verdadeiros dinossauros (e existem PRA CARALHO neste meio) estavam dando ordens nas redações. Tsc tsc. Na real, o saco cheio tem relação com as porradas não endereçadas a mim que, por uma questão de proximidade, acabaram na minha cara.
Pelos dedos acusadores de falta de interação com a Nova Mídia quando os responsáveis não se dão ao luxo de buscar o arquivo do Now! atrás de notícias que citam os poucos blogueiros de tecnologia no Brasil que criam conteúdo ou projetos dignos de serem linkado, como Bia Kunze (parceria HTC e Celéstica), Edney Souza (lançamento do Interney Blog), Alexandre Inagaki (parceria do Interney Blogs com iG e ação do caso WordPress) e Filipe Alvarenga (vagas na Apple para iPhone no Brasil).
(Não custa lembrar que me atenho a exemplos do jornalismo de tecnologia, feito ele em sites da Grande Mídia ou em blogs).
É com a esperança de que vá surgir alguém que justifique todo este hype de conteúdo que eu torço para que o Repórter Blogueiro do corleonne Edney dê resultado – leia-se conteúdo que os jornalistas podem usar, com a devida referência. Que a ascenção da tal mídia social na imprensa brasileira seja lembrada um pouco mais pra frente além dos seus debates polidos sobre jornalistas contra blogueiros ou validade de post patrocinado (boooooring).
O tema estudado no mestrado passa um pouco por isto. Ao tentar explicar melhor pra patroa o que estudava (ao lidar com um assunto complexo, tente explicar pra sua avó ou pra um conhecido totalmente fora da tecnologia pra mastigar as idéias), me surgiu a idéia de uma escala para representar o jornalismo cidadão no Brasil.
O período mais básico, o inicial, é compreender e encarar fatos que acabam em si como notícias – batidas de carro ou acidentes, por exemplo. A popularidade de carros espatifados, encontros com celebridades ou salvamentos dos Bombeiros em serviços brasileiros de interação jornalística deixa claro que, numa média, ainda estamos lá embaixo na capacidade de entender algo como notícia.
Ouvir a frase de um político sobre um palanque no interior do país que vá contra promessas anteriores ou os princípios do próprio partido, por exemplo, pode ser encarado como a outra ponta da escala – uma situação em que é necessário conhecimento prévio do assunto e entendimento sobre os desdobramentos daquela ação.
Aí a gente cai num papo que não tem muito a ver com ferramentas de mediação comunicacional (como a academia adora classificar blogs, serviços de microblogging, podcasts e o escambau), mas sim de formação intelectual. De educação. De leitura – ou de falta de. A expressão é um claro desdobramento do acúmulo de referências e cultura que o indivíduo acumula pela vida, por mais piegas que isto seja.
Para reportar tecnologia, caímos no mesmo problema. Um ótimo exemplo de jornalismo feito por blogs num caso quente foi Rodrigo Ghedin ter ido procurar a Automattic diretamente ao invés de cuspir as mesmas frases de efeito em seu blog contra o bloqueio do WordPress no Brasil.
Por outro sentido, redes sociais são um paiol riquíssimo para fontes e história, nunca foi tão possível rastrear o que o leitor gosta e responde a e apostar em conteúdo semelhante e o acúmulo de holofotes alçam um bom repórter à notoriedade rapidinho pela viralidade do seu conteúdo produzido. Espera investimentos em curto prazo do Now! neste sentido.
Outra coisa: você pode muito bem me chamar de conservadorismo, mas não consigo ver leitores que não conseguem se acertar com o português básico (do tipo que usa vírgulas com abundância, troca os “o” pelos “u” ao se aproximar do discurso falado e não tem a mínima iniciativa de procurar um dicionário quando em dúvida) quando tentam argumentar sobre determinado assunto. Não sei, não cola.
Meu saco cheio também tem relação com a inversão de uma regra da expressão. Qualquer ferramenta (seja ela plataforma de blog ou cone de jornal) deve ser servir aos seus assuntos, e não o contrário. Na escala entre o impulso de de comentar ou despejar por aqui tudo que se tem vontade e o pragmatismo de saber que um blog precisa de atualização para continuar a chamar atenção, fiquei preso à segunda, de olho colado no Analytics.
Grande bobagem. O Chá perdeu um tanto do seu objetivo primordial – um repositório de textos, informações e apurações não usadas no veículo em que estou (o Now!, no caso). O Chá é uma espécie de palanque virtual que o querido e respeitadíssimo jornalista do meio Genílson Cézar prega sobre apuração – diz ele que, após colher tanto dados que não cabem em matérias, a vontade é pegar uma caixa de laranja, subir sobre ela em uma praça pública e detalhar toda a história, sem aquela preocupação de espaço.
Agora, se a tua não é produzir conteúdo original, seja sincero pelo menos. É sempre bom consultar pontos de vistas diferentes embasados por argumentos. Saiba, porém, que, contraditoriamente, há um grande filão para notícias de tecnologia não explorado que, pelo andor, vai cair no colo de um jornalista enxotado da Grande Mídia.
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Cesar Cardoso





