Chá Quente

Jornalismo de tecnologia. Por Guilherme Felitti.

esfacelada, olpc tenta admirar o mercado

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O que mais me incomoda na recente divulgação de um novo protótipo da One Laptop per Child é a pretensão.

Dois anos e meio após revelar a “Máquina para crianças”, a fundação do favorito destas bandas Nicholas Negroponte apresenta a segunda versão comercial (oitava no total?) do XO em uma hora completamente insólita.

Co-fundadora, Mary Lou Jepsen saiu para fundar sua própria empresa que vende tecnologias criadas para o laptop educacional (e estampar as páginas da Time). Presidente de software e boa praça, Walter Bender saiu por discordar da iminente parceria da OLPC com a Microsoft, já adiantada por contatos de Negroponte com a mídia.

Enquanto a OLPC se esfacela aos olhos do público, as fotos do novo XO deixam todos babando com duas telas sensíveis a toque que fariam a notebooks o que o iPhone fez a celulares. Esteticamente, é inegável: o protótipo é lindo (veja mais fotos aqui).

O lance é que a OLPC não conseguiu nem realizar o XO original direito. Não há plano de varejo convincente. Não há os acordos fechados com os países originalmente imaginados (Brasil, inclusive) – só o Uruguai já comprou XOs da OLPC. Há registros de problemas com o hardware.

E, em nenhuma situação (NENHUMA), o tão alardeado “notebook de US$ 100″ chegou a custar 100 dólares - o preço mais baixo foi de 188 dólares. Como então apresentar um mercado um protótipo ainda mais sofisticado com previsão de preço de 75 dólares?

Teoricamente, nada é mais broxante para entusiastas do projeto (e você pode colocar meu nome nesta lista, por mais que alguns ainda teimem em discordar) do que concluir que, enquanto coloca suas fichas em software na 2ª versão do XO, a OLPC sufoca ao mesmo tempo o principal fruto dos seus esforços no setor, o sistema operacional Sugar.

Os mais puristas podem até fazer careta, mas o acordo fechado entre OLPC e Microsoft é simbiose pura: a primeira não perde um mercado (potencialmente, até agora) gigantesco, enquanto a segunda deverá (DEVERÁ) ganhar uma grana para continuar seus projetos.

O sucesso comercial da OLPC, porém, coloca diretamente em risco o Sugar, moldado apenas para crianças em atividades educacionais. Não é à toa, porém, que Bender anunciou, no mesmo dia do acordo entre Microsoft e OLPC, a fundação de uma nova organização, a Sugar Labs, para promover o Sugar em outros equipamentos além do XO.

Negroponte sempre repetiu (ecoado pela Intel) que o OLPC não é um projeto de laptop, é um projeto educacional.

Dois anos e meio depois, a impressão que se tem é que foi o mercado (e sua enxurrada de ultraportáteis) quem mais se beneficiou da picada em mato fechado aberta pela OLPC do que propriamente
os alunos das escolas públicas em países do terceiro mundo.

Written by Guilherme Felitti

May 27th, 2008 at 2:22 pm

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