Chá Quente

Jornalismo de tecnologia. Por Guilherme Felitti.

a falácia do traffic shaping

Comments

traffic_shaping_GVT
A tela acima foi retirada de uma suposta apresentação confidencial bolada pela GVT para ensinar a seus funcionários o que é e como funciona o traffic shaping. O documento completo está em poder de uma das fontes ouvidas para a (longa) matéria sobre traffic shaping publicada no Now! nesta semana e será apresentado ao Ministério Público Federal.

Caso genuína, a apresentação acima contradiz a GVT, que confirmou oficialmente ao Now! não fazer trafic shapping. Problema exclusivo da GVT? Não.

Meus dois centavos sobre a questão: é incrívela riqueza das metáforas que ouvi nesta semana inundada pelo assunto. Foram o sistema financeiro, overbooking de avião, litros bebidas (refrigerante e leite são os mais comuns), carros de Fórmula 1 e por aí vai.

Sejamos diretos. Juridicamente, as operadoras estão erradas em limitar sua banda? Não. Os contratos são claros – ela garante apenas uma porcentagem (10%, na média) da banda contratada.

Você pode fazer quanto bico quiser, mas, se sua velocidade for 11% do contratado e sua assinatura estiver no contrato, a provedora não fere a lei. Comparar com o mercado internacional não vale – os investimentos em infra-estrutura de banda larga nos EUA e no Japão, além de infinitamente maiores que no Brasil, contam com incentivos do Governo.

Moralmente elas erram? Sim, principalmente pela falta de transparência no trato com o cliente. Nenhuma delas falou para a matéria sobre traffic shaping, mas, para o FAQ sobre banda larga, um executivo da Net classificou a acusação como “falácia”.

O Michaelis (o Houaiss tá fora do ar desde ontem, merda) classifica “falácia” como “engano, logro”, exatamente o que a Net (assim como todas as operadoras que comprovadamente apelam para a prática, mas negam) faz com quem compra um acesso e tem de enfrentar uma barreira de atendentes no telemarketing para simplesmente reclamar.

A omissão da operadora desde as primeiras reclamações de usuários fez com que estes se organizassem de uma maneira que qualquer confissão da prática não apenas mancharia a imagem da empresa para a opinião pública, como também a tornaria alvo certeiro de ações de Procons e Idecs da vida.

Então abrir protocolos de reclamação para sempre na Anatel é o caminho? Também não. É incrível que, na briga entre operadoras que calam e usuários que armam um fuzuê em redes sociais e comunidades de vídeo, a agência responsável por regulamentar as telecomunicações brasileiras se omita.

Por dificuldades técnicas enfrentadas pela própria Justiça nacional em aferir tecnicamente o bloqueio (que pode ser facilmente relaxado pela operadora na região onde a conexão é testada), a briga deve continuar a mesmo enquanto a Anatel não entrar na briga.

Enquanto isto, recorrer aos tutoriais espalhados pela internet ou baixar o plug-in Vuze para o Azureus não custa nada. Reiterando: se as operadoras juram de pés juntos que não fazem, não vão se incomodar.

Written by Guilherme Felitti

May 6th, 2008 at 10:03 pm

Posted in internet

  • gfelitti
    mais um exemplo pra lista de metáforas dot raffic shaping, eduardo.
    o difícil de entender pra quem ainda faz este tipo de comparação é que não se pode comparar algo físico (tipo um litro de leite ou carne) com um serviço (!), ainda mais quando o contrato do serviço prevê (!) uma taxa de entrega longe do 100% (!).
    abraços,
  • Guilherme,
    A cláusula que garante as operadoras o dever de entregar apenas 10% do que vendem é totalmente contestável juridicamente. Imagine comprar 1kg de carne e receber 100gr ! Você está absolutamente certo ao colocar a questão do traffic shaping como menor em um cenário com este tipo de regulação.
  • Guilherme, acho que nessa briga, os consumidores vão continuar à própria sorte, a ANATEL não tomou nenhuma atitude contra outros abusos antigos, além de baixar normas que claramente favorecem as operedoras.

    Um exemplo é o caso da obrigatoriedade de contratar provedores para quem assina banda-larga, mesmo não existindo necessidade.

    []s
blog comments powered by Disqus