Entries from May 2008 ↓

para francisco. e para você também.

Descobri o Para Francisco num momento em que meu saco cheio já não me dava toda condição de esconder que a história de que cada um pode fazer seu noticiário com blogs não passava de uma versão do Princípio de Pareto (ou uma relação ainda mais radical, como a registrada na Wikipedia) na mídia digital.

Não agüentava mais a irrelevância dos muitos que apenas copiavam ou davam opiniões ruins – nada embasadas, preconceituosas, sempre exalando uma petulância de quem acha que tem autoridade para falar sobre determinado assunto.

A grande maioria não tem. Mas se engana que tem, talvez motivada pelo falso poder da premissa de que todos poderão fazer seu noticiário, a ponto de achar que a melhor forma de se entender é atirando pedras.

Meu saco pros assuntos de tecnologia está terminando. A paciência contra a irrelevância da grande parte do que leio, contra as opiniões que chegam a mim sem qualquer tipo de cuidado, contra quem acha que quem vai dominar o mundo é quem dá a opinião, sem entender que, para ter opinião, é precisar depender daqueles que colhem versões. Daqueles que transformam os fatos em notícias.

O Para Francisco não tem nada a ver com tecnologia. Pelo contrário: ele tenta ser uma ponte para que uma criança, o Francisco, conheça, por meio de frações de músicas, textos e cartas, seu pai e o subtítulo do blog é melhor que eu para definí-lo:

“Um homem tem morte súbita, dois meses antes do nascimento do seu único filho. Assim nasce este blog. Tentando entender e explicar dois sentimentos opostos e simultâneos vividos pela viúva e mãe que, no caso, sou eu. Muitos questionamentos. Muitos raciocínios. Muito aprendizado. E uma pressa em falar para o Francisco sobre seu pai, sobre o mundo e sobre mim mesma (só por garantia).”

Tente ler o relato que a mãe (que eu me recuso a classificá-la como blogueira da maneira restritiva que muitos daqueles que usam suas bocas como latrinas o fazem neste aspecto) tece sobre a morte da avó de Francisco e tente não lacrimejar sem lembrar da sua.

Salte depois pro corajoso desabafo em que a cumadre Thiane, entalada até o pescoço do mundo corporativo, quebra a associação inerente aos assuntos “maternidade” e “matrimônio”.

Tecnologia é fascinante, mas é algo exageradamente previsível. De uma maneira como, talvez você saiba e isto soe piegas pra caralho (ué, o nome do responsável pelo blog lá em cima é o meu, não?), a vida não é.

spam 2.0 no orkut


O OpenSocial nem formalizado no Brasil foi e as páginas dos aplicativos mais usados (como o Traveler IQ Challenge) já viraram um antro do spam 2.0.

os posters da amazon






Soterrado nos milhões de produtos que oferece, a Amazon esconde uma coleção de milhares (sério!) de posters de filmes. Preços camaradas e um frete de doer o baço (US$ 7!!). Mas alguns são realmente tentadores. Perca alguns minutos.

instrumental: umbrella


Segunda da série instrumental deste blog – a sempre presente em sets de mashups “Umbrella”, da Rhianna – aliás, a provável música com covers mais bisonhos no YouTube.

Ah, onde este Chá encontra capas de CDs com resolução? AllCDCovers. Já é favorito.

esfacelada, olpc tenta admirar o mercado


O que mais me incomoda na recente divulgação de um novo protótipo da One Laptop per Child é a pretensão.

Dois anos e meio após revelar a “Máquina para crianças”, a fundação do favorito destas bandas Nicholas Negroponte apresenta a segunda versão comercial (oitava no total?) do XO em uma hora completamente insólita.

Co-fundadora, Mary Lou Jepsen saiu para fundar sua própria empresa que vende tecnologias criadas para o laptop educacional (e estampar as páginas da Time). Presidente de software e boa praça, Walter Bender saiu por discordar da iminente parceria da OLPC com a Microsoft, já adiantada por contatos de Negroponte com a mídia.

Enquanto a OLPC se esfacela aos olhos do público, as fotos do novo XO deixam todos babando com duas telas sensíveis a toque que fariam a notebooks o que o iPhone fez a celulares. Esteticamente, é inegável: o protótipo é lindo (veja mais fotos aqui).

O lance é que a OLPC não conseguiu nem realizar o XO original direito. Não há plano de varejo convincente. Não há os acordos fechados com os países originalmente imaginados (Brasil, inclusive) – só o Uruguai já comprou XOs da OLPC. Há registros de problemas com o hardware.

E, em nenhuma situação (NENHUMA), o tão alardeado “notebook de US$ 100″ chegou a custar 100 dólares - o preço mais baixo foi de 188 dólares. Como então apresentar um mercado um protótipo ainda mais sofisticado com previsão de preço de 75 dólares?

Teoricamente, nada é mais broxante para entusiastas do projeto (e você pode colocar meu nome nesta lista, por mais que alguns ainda teimem em discordar) do que concluir que, enquanto coloca suas fichas em software na 2ª versão do XO, a OLPC sufoca ao mesmo tempo o principal fruto dos seus esforços no setor, o sistema operacional Sugar.

Os mais puristas podem até fazer careta, mas o acordo fechado entre OLPC e Microsoft é simbiose pura: a primeira não perde um mercado (potencialmente, até agora) gigantesco, enquanto a segunda deverá (DEVERÁ) ganhar uma grana para continuar seus projetos.

O sucesso comercial da OLPC, porém, coloca diretamente em risco o Sugar, moldado apenas para crianças em atividades educacionais. Não é à toa, porém, que Bender anunciou, no mesmo dia do acordo entre Microsoft e OLPC, a fundação de uma nova organização, a Sugar Labs, para promover o Sugar em outros equipamentos além do XO.

Negroponte sempre repetiu (ecoado pela Intel) que o OLPC não é um projeto de laptop, é um projeto educacional.

Dois anos e meio depois, a impressão que se tem é que foi o mercado (e sua enxurrada de ultraportáteis) quem mais se beneficiou da picada em mato fechado aberta pela OLPC do que propriamente
os alunos das escolas públicas em países do terceiro mundo.

orkut com opensocial em mãos


O Google pode até defender que mudar países para evitar os constantes “Bad, bad server” e “No donut for you” há alguns meses seja apenas um mito. Mas o Orkut com OpenSocial já é uma realidade pelo mesmo truque nunca confirmado para quem não está no Brasil.

Só no Brasil.

Quer brincar com os aplicativos (ainda não maduros, segundo o Google Brasil) no Orkut? Mude seu país para qualquer outro.

a bolacha roda

[youtube]SrvOGHqT1P4[/youtube]
[youtube]A_cd7F4faXg[/youtube]
[youtube]J77l3SHmE0Q[/youtube]
[youtube]8TOQi8K77II[/youtube]
Meu fetiche por vinil explica tudo. Que idéia foda do tal “h6ksa1″ no YouTube. No canal dele, rolam muitos vídeos no mesmo estilo.

content is king

A CBS gasta 1,8 bilhão de dólares pela CNet, estandarte da Grande Mídia eletrônica de tecnologia mesmo com apenas 15 anos nas costas.

A Condé Nast, da pioneira Wired, gastou 25 milhões de dólares (mesmo valor pago pelo site da revista) pela Ars Technica.

Nenhum dos dois comprados têm tecnologias proprietárias que podem ser reaproveitadas ou reempacotadas.

Nenhum dos dois comprados é um serviço social ao redor de determinado tema.

Ambos são veículo que fazem jornalismo (ok, há controvérsias quanto à Ars) . Conteúdo. Que construíram uma audiência baseada em notícia, reportagem, análise, vídeo, podcast, apuração. Jornalismo.

E aí? Você, brasileiro perdido numa floresta de material irrelevante, ainda acha realmente que conteúdo não conta?

vendo blindness

“O resultado da pesquisa apenas confirmou o que eu já imaginava após a sessão. Os números não foram formidáveis. Entre as razões pelas quais mais pessoas não avaliaram o filme como excelente, os 5 primeiros itens mencionados estavam relacionadas a intensidade:

1 – Cena de estupro muito forte. 2 – Cenas de estupros muito longas. 3 – Muitas cenas de estupro. 4 – Filme muito intenso. 5 – Filme difícil de assistir.

E pensar que eu estava com medo de ter feito um filme muito limpinho… Tive que dar o braço a torcer para o pessoal da Miramax, havia mesmo passado do ponto.

Para completar a noite desastrosa no focus group, uma mulher, que havia avaliado o filme como “pobre”, fazia questão de participar ativamente do debate levantando todo tipo de problema que passava pela sua cabeça perversa e despenteada. Se o braço da minha poltrona fosse removível provavelmente teria tentado acertar aquele cucuruto grisalho de onde saía sua voz irritante:
“The sexual violence is totally gratuitous in the film”, dizia.

“Fecha essa matraca e vá pentear esse cabelo minha senhora!”, eu replicava mentalmente. “E aproveita e bota uma tintura também!”

Perdão. Me deixei levar pela emoção.”

Impressionante a transparência que Fernando Meireless aplica nos seus posts sobre a produção (agora, praticamente encerrada em nome da divulgação) do “Ensaio sobre a cegueira“.

O detalhamento que ele faz do processo de finalização do filme, com mais de 10 versões de edição do material bruto, sessões de testes com amigos e cinéfilos comuns (o que o levou à explosão contra a descabelada senhora canadense descrita acima) e a correria para cumprir datas previstas em contrato pelo mundo são um prato cheio pra quem gosta de cinema e pretende entender os passos além do glamour e das porradas de Cannes.

o PDP na tecnologia brasileira

Não chega a ser uma surpresa, mas a Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP) abusa da governabilidade da exceção com o acúmulo de Medidas Provisórias para viabilizar as medidas de incentivo à indústria nacional.

A conseqüência mais direta é que qualquer entrevo entre Base Aliada e Oposição é suficiente para travar a pauta de votação e deixar os (ousados) objetivos do PDP sem estrear, um risco num plano de investimento nos próximos três anos.

Em tecnologia, o impacto mais gritante do PDP está na pretensão do Governo em atrair duas fabricantes de semicondutores ao Brasil (!!), das que lidam diretamente com silício para fabricar componentes (tecnbicamente conhecidas como front-end) – atualmente, temos apenas as que montam os componentes já prontos e importados.

É bastante ver a euforia em colocar 2 fábricas como meta em um setor tradicional bastante difícil no Brasil – cercada de uma euforia que só perde para o tão sonhado primeiro Oscar brasileiro, argumenta a chefia.

Os incentivos fiscais necessários para atrair as fábricas não foram revelados pelo Governo (olha a avalanche de MPs aí), mas o nome da Toshiba ganha força depois da visita da Ministra da Casa Civíl, Dilma Roussef, ter feito com que os japoneses ressucitassem a idéia de fabricar no país, revela Josias de Souza em seu blog.

Nos impulsos de pesquisa, o Governo pretende dobrar (de 7 para 14) as chamadas Design Houses, do programa CI Brasil, que usa dinheiro público e privado para incentivar pesquisas em microcircuitagem e chips, numa semente ainda para um setor ainda incipiente no Brasil.

Já a exportação de software é a que tem a pretensão mais ousada: a receita deverá mais que quadruplicar em dois anos e meio, dos US$ 800 mi em 2007 para US$ 3,5 bi em 2010, e 2 empresas nacionais (que fixação, hein?) deverão ter receita maior que US$ 1 bilhão.

Factível? Serão investimentos de até R$ 41,2 bilhões até lá, entre isenções fiscais para pequenas e médias empresas (foco principal da iniciativa) e outras ações (de novo) não detalhadas pelo Governo.

No site do PDP, definições como “Ampliar a inserção internacional”, “Incrementar o investimento em capacitação tecnológica”, “Fortalecer empresas brasileiras de tecnologia nacional apoiando consolidação empresarial” e “Consolidar e fortalecer a marca ‘Brazil IT’” não são explicadas o suficiente pra dar um sentimento de conforto (ou de capacidade) para metas tão ousadas.

No “samba do PDP louco”, entram também uma fábrica e centros de pequisa para displays, levar a 100% dos colégios públicos banda larga (projeto tocado pelo MiniCom originalmente, não pelo Desenvolvimento), dobrar a base de PCs instalados (a FGV, ironicamente, deu uma previsão animadora na mesma semana) e reduzir o crescente déficit em componente eletrônicos (quem não fabrica, só compra pronto, ué).

Ao contrário do PAC, que apostava muito em isenções fiscais (o seu micro comprado, e não montado, agradece), o PDP é um tratado de boas intenções com objetivos altíssimos (ainda mais para 2 anos e meio, este blog reitera) que depende de um ambiente altamente instável – o balanço entre Governo e Oposiução da política brasileira.

Seu eu me animaria? Gostaria. Mas, sem saber as ações pontuais, não fico.