Windows Vista: euforia e delírio no Itaim Bibi
A Microsoft resolveu dar ao seu novo sistema operacional, o Windows Vista, uma estréia brasileira digna de outras cidades com os tradicionais festejos que avançam pela noite.
A ousada idéia era simples: levar executivos da Microsoft Brasil e um da Microsoft internacional para acompanhar de perto as vendas in loco do sistema operacional a partir dos primeiros minutos do dia 30 de janeiro, quando o software chegaria às lojas.
Para evitar um vexame, a estratégia contava ainda com uma chamativa promoção para os inflados preços tanto do Windows Vista como do Office no Brasil e a distribuição de brindes diversos.
Em julho de 2000, tive a estranha sensação de ver o lançamento do quarto título da série Harry Potter no Canadá. Pontualmente à meia-noite, dezenas de crianças em seus pijamas invadiam a Barnes and Nobles em Toronto atrás do então novo “Harry Potter and the Globet of Fire”, com suas 636 páginas (ah, o consumismo infantil).
Na visão do repórter, o evento da Microsoft se apresentava como um potencial fracasso tanto pela falta de lançamentos similares, em que ávidos clientes avança pontualmente sobre um produto como pela própria natureza (?) do Windows Vista.
Não se trata de um livro de dezenas de dólares para um grupo de crianças histéricas em um país de primeiro mundo. Trata-se de um sistema operacional com preço mínimo de 399 reais num mercado evidentemente corroído pela pirataria de softwares.
Em plena noite de segunda-feira, o cenário se pronunciava ainda mais fadado ao fracasso pela chuva que caía fina, mas constante na cidade de São Paulo.
Primeiro erro da noite: o Windows já é muito maior que um personagem de ficção. Fato é que, enquanto muitos comentavam com ironia a iniciativa da Microsoft, a fila (e a euforia) dentro do hipermercado Extra, no bairro do Itaim Bibi, já havia começado.
Teoricamente, a euforia podia ser justificada pela promoção promovida pela loja Itaim Bibi do Extra. Se você fosse um dos 20 compradores do Vista Home Premium (R$ 589) ou Ultimate (R$ 999) levava de graça o Office 2007 Professional (R$1.599).
Aos 200, estava assegurado um teclado e um mousepad com sua foto. A qualquer um que desafiasse a chuva e colocasse o pé no lugar, freebies, squeezes e passes de mágica evocando o novo sistema operacional.
Às 22h00, sessenta senhas já haviam sidos distribuídas. Uma hora depois, a belíssima atendente de calça fuso apertada e um verde profundo nos olhos perguntava se o repórter queria uma senha, na sua chegada. Estávamos no número 109.
A abordagem só foi possível pelas poses que Antonieta fazia aos fotógrafos em frente a um gigantesco banner com o logo do Windows Vista. A decoradora (“mas sou empresária agora”, fala com o sotaque inconfundível) veio de Uberaba a São Paulo para comprar o Vista.
Foram 487 quilômetros pela rodovia Fernão Dias, castigada por buracos na chegada a São Paulo, com um cartaz amarelo para comemorar a segunda posição. Ao chegar no Extra às 16h30, pintou com caneta um “A segunda da fila!” e agora segura a peça para alegria dos fotógrafos.
Quinze minutos depois, o repórter volta à atendente e pega a senha 121. São 23h15.
Há todo tipo de gente no evento. A maioria, evidentemente, é homem. A tecnologia é o novo futebol na TV de domingo. Há médicos, policiais, bombeiros, deficientes, madames surpresas com a bagunça, moderninhos e, surpreendentemente, pais e mães normais.
Gente que não lê sites de notícias e nem faz questão de saber que a tendência online de Web 2.0 propõe a interação do usuário com serviços online visando tanto a expressão dos antes oprimidos como um suposto novo modelo que sustente as empresas.
São pessoas que, a exemplo da velha dondoca da Escolhinha do Professor Raimundo, podem proferir palavrões se o repórter perguntar se conhece o que é Ubuntu. Não conhecem.
O setor de computador do Extra está abandonado. Enquanto um home center da Semp Toshiba exibe o trailer do polêmico “Turistas”, em que brasileiros são pintados como assassinos, brasileiros conversam calmamente sobre um churrasco apoiados em grandes caixas de papelão.
As caixas são desktops STI, também da Semp Toshiba, com o agora ignorado Windows XP. Sai por 1.299 reais – agradeça à Lei do Bem.
Lá na frente, no largo corredor que separa as sessões de DVDs e vestuário infantil, onde normalmente o mercado posiciona largas cestas com coletâneas românticas e sucessos do passado por menos de 20 reais, está a muvuca.
E estão os micros abençoados pela presença do Vista. O mais simples sai por 1.699 e tem um Vista que não venderá uma cópia durante a madrugada toda: o Starter Edition, disponível apenas pré-instalado.
Um pai para, olha a máquina, cutuca um atendente (funcionário da Microsoft) e confessa numa fúria consumista que “é esse mesmo que eu vou levar”. Constrangido, o rapaz de camiseta branca com o logo do sistema pede que ele espere até a meia noite. São 23h40.
É aí que aparece do fundo da loja Steve Sinofsky, com seu biótipo e seu carisma dignos do rato Stuart Littley, da cinesérie homônima. Tóquio contou com Steve Ballmer e sua loucura. Nova York teve Bill Gates e sua filantropia. São Paulo tem Sinofsky, com camisa da Seleção Brasileira com seu nome nas costas.
No papel de estrangeiro clichê, Sinofsky atrai todas as atenções, mesmo extremamente tímido, ao contrário do esguio senhor careca que sai da escada rolante cercado de colegas.
Vestindo calça de sarja verde, mocassim sem meia e a indefectível camiseta que identifica quem está ali por uma ligação com a Microsoft, Michel Levy passeia pela loja como se não ocupasse a presidência da Microsoft Brasil.
Se espreme entre clientes acotovelados na fila, pede desculpas a uma senhora que atinge inadvertidamente e chega ao grupo de pessoas – representantes comerciais -, com quem conversa com entusiasmo.
Interpelado pelo assessor, Levy se desvencilha do grupo para dar entrevista à imprensa, disfarçada entre os clientes comuns a não ser pela presença de uma câmera no ombro de um sujeito.
É evidente que Levy se sente mais confortável hoje no cargo de presidente da Microsoft do que quando o mesmo Windows Vista foi lançado para clientes corporativos. Na ocasião, o executivo se resumiu a respostas monossilábicas sobre certos aspectos da introdução.
É com esta tranqüilidade que Levy responde. Ironicamente, é o único executivo ligado à Microsoft a não emendar um “É claro” quando perguntado se esperava a comoção durante o lançamento.
“Realmente tinha algumas expectativas (sobre o evento), já que tivemos ótima recepção da crítica e do público. Mas é uma boa surpresa”, afirma ressabiado, quase que com vergonha de admitir que não, não esperava tanta gente no Extra.
Diz ainda que espera que a expectativa do público de traduza em adoção mais rápida do Vista no Brasil e encerra a conversa com o repórter para se organizar para a cerimônia. Já são 23h50.
Primeiro, fala o gerente da loja. Cita isenção de impostos e simplifica terrivelmente o programa Computer para Todos. Aplausos.

É hora de Levy falar. Repete o mesmo discursos dado à imprensa sobre a importância do Brasil para o Vista, que será “todo traduzido em português”. Fala rápido e o público explode em palmas quando escuta seu Henrique anunciar se tratar do presidente da Microsoft.
Seu Henrique veste um terno marrom desbotado e enverga um bigode tão escuro que suscita dúvidas sobre o uso de tintura – é inegável que já passou dos 50, com seus fios brancos penteados cuidadosamente na lustrosa careca.
É a voz de seu Henrique que você escuta sempre que vai fazer compras no Extra do Itaim Bibi. Peito de frango na promoção por 5,5 reais o quilo? Super promoção de detergente, com limite de 10 peças por pessoa? Senhora Jaqueline Vieira, mãe do Vitor, se dirigir à entrada da loja?
Seu Henrique.
Sobe no pequeno púlpito transparente Alexandre Leite, diretor de Windows Cliente da Microsoft Brasil. Fala sobre Media Center, sobre beleza de interface, sobre facilidade de uso…
Até que um momento de tensão se configura atrás dele. O executivo de comunicação percebe que falta um minuto para a meia-noite e, pelo jeito, Leite não parará de falar.
Entra em cena o assessor do Pão de Açúcar. Com a mão no microfone, impede que Leite continue o discurso e troca olhares confusos com outros assessores da loja. Um momento de silêncio naquela hora mostra a indefinição entre todos eles.
Aí seu Henrique, experiente, intervém, fala da bendita hora chegando e propõe uma contagem regressiva, como um Reveillon. A contagem começa tímida e só embala de verdade no número 7, quando já estão com as mãos na tesoura que cortará a faixa até as gôndolas Steve, Leite, Levy e o gerente da loja.
Pouco antes de Samira adentrar o cercadinho com as oito prateleiras repletas de cópias das versões Home Basic, Home Premium e Ultimate do Windows Vista e Student & Home e Professional do Office 2007, um susto.
Na quarta prateleira, uma senhora de cabelos loiros e uma chamativa blusa tropical caminha lentamente para o caixa com dois Windows Vista Ultimate. Após centenas de senhas distribuídas e horas de espera, a fila organizada pela Microsoft será furada sem o mínimo de vergonha?
Os seguranças agem rápido. Tiram do cercadinho a mulher que, assustada com a abordagem do repórter, resmunga que seu genro estava perdido na fila ao exibir sua senha de número 8.
Começam as compras. Enquanto isto, Steve está afastada da bagunça, espremido entre um micro pronto para o Vista e uma arara com shorts laranjas infantis para meninas. Simpático e extremamente corporativo, diz que, a cada novo Windows, a festa é sempre maior. O rigor corporativo impede uma interação mais intimista.
Ao mesmo tempo em que anda, a fila para entrar no cercadinho toma forma e mostra o tamanho das 200 pessoas enfileiradas, enquanto os três caixas preparados para receber o dinheiro pelo Vista acumulam às vezes oito compradores.
Já são 00h25 quando o detentor da senha 194 tira uam foto no estúdio mambembe montado pela Microsoft – quem pegou senha pode tirar uma foto, que servirá de fundo em um mousepad comemorativo da data.
Quase oito horas depois de chegar o hipermercado, Samira ainda está de pé, exibindo orgulhosa as caixas do Vista no seu papel de pseudo-celebridade do momento.
Abre um sorriso quando o repórter se aproxima e, equilibrando as quatro cópias e dois teclados, abre orgulhosa a camiseta com sua caricatura, onde se vê diversos números 1 ao lado de sua representação.
Reclama do “péssimo trabalho” do caricaturista e finge que não ouve quando o repórter diz que ela está ficando mal acostumada. O sorriso volta e ela se explica. É micro-empresária no setor de tapetes automotivos. A promoção lhe pareceu infalível.
“Pequenas empresas como a minha querem ser legalizadas, mas na medida do possível. Precisamos ter os pés no chão”. Seu sistema atual, por acaso, é original.
Quase que confidenciando uma malandragem, responde que este “é outro motivo pelo qual estou aqui”. Entendeu?
O repórter quer saber se ela falou a Levy sobre os altos preços do Windows. Falou. Ele prometeu alguma coisa? Nada. Enquanto a Lusitana roda e o Windows vende, o mundo continua rodando.
Se despede, quase sem se mover, com as caixas empilhadas sobre os braços que abrem a camiseta com sua, segundo ela, terrível caricatura.
Já na saída, encontramos Charbel Mansour El Batti, entrevista anteriormente pelo editor-executivo da ComputerWorld, Alexandre Scaglia.
El Batti está preenchendo papéis obrigatórios a quem quiser ganhar seu teclado da Microsoft. Interpelado por Scaglia, mostra que comprou o Windows Vista Home Premium – preço de tabela: 589 reais.
Não haveria choque não fosse a visão de El Batti. Vestindo uma camiseta puída de Itanhanhém, calçando gasta Havaianas e com barba por f azer, El Batti deixa claro visualmente que não está numa alta camada social.
Com calma e encolhido, tira a sofisticada caixa do Home Premium da amassada sacolinha do Extra e explica que o vendedor lhe aconselhou a comprar o software, já que seria necessário só “uma atualização de memória”.
O alto gasto de El Batti no sistema operacional não é só pelo uso dos seus filhos – crianças, e não adolescentes, na faixa dos 10 anos de idade – de Orkut e games, mas pelo medo assumido “pelas janelas que pulam no meu computador”.
As janelas são parte do Windows Genuine Advantage, programa da Microsoft que combate a pirataria e sofreu acusações de ser um spyware nos Estados Unidos por se apresentar para o usuário como uma atualização de segurança.
El Batti gastou os 589 reais à vista, sem trocadilhos. Ele não tem crédito para parcelar o software, como Samira. Mas tem fé que o aplicativo, com o sofisticado Windows Media Center que Leite tanto falou quando no púlpito, funcionará corretamente no seu micro montado na Santa Efigênia.
A alguns metros dali, os executivos da Microsoft comemoram a iniciativa com sorrisos maiores até mesmo que a surpresa do repórter na euforia do brasileiro em comprar o Vista e na falta de conhecimento do brasileiro ao adotar o chamado “sistema operacional mais completo da história” acima de tudo.
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Carlos Eduardo Buarque
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